Enquanto um assistia por videoconferência e desligou a câmera, o outro pediu para ir ao banheiro do Fórum e desapareceu; dupla foi condenada pela morte de um trabalhador em 2016.
Uma reviravolta digna de roteiro de cinema marcou o desfecho do Tribunal do Júri de Sorriso. Dois homens acusados de um homicídio ocorrido há quase uma década conseguiram protagonizar duas fugas simultâneas — uma física e outra virtual — momentos antes de serem condenados a 20 anos de prisão em regime fechado. Francisco dos Reis Almeida Silva, o “Gula”, e Kelson Serra agora são considerados foragidos da Justiça.
A audácia dos réus quebrou a solenidade do julgamento em momentos distintos. Kelson, que acompanhava a sessão por videoconferência diretamente do Maranhão, desconectou-se da transmissão assim que o Ministério Público iniciou a fase de réplica, sumindo das telas do tribunal. Pouco tempo depois, Francisco, apontado como o executor dos disparos, utilizou uma tática clássica: pediu permissão para ir ao banheiro do Fórum de Sorriso e nunca mais retornou ao plenário.
Mesmo com as cadeiras vazias e as telas apagadas, o Conselho de Sentença manteve o rito jurídico. O veredito foi implacável, reconhecendo as qualificadoras de motivo fútil e recurso que impossibilitou a defesa da vítima. O juízo determinou o cumprimento imediato da pena, e as forças de segurança agora correm contra o tempo para localizar e capturar a dupla.
A tragédia por trás do processo
O crime que motivou o julgamento ocorreu em setembro de 2016 e teve como vítima o operário Antônio Bezerra da Silva, morto por engano aos 22 anos. Segundo as investigações do Ministério Público de Mato Grosso, Antônio foi assassinado sob a suspeita infundada de ter furtado um revólver de Francisco. Kelson teria apontado a vítima erroneamente como o autor do furto. Na realidade, Antônio era apenas um trabalhador que estava no local para instalar um portão e foi baleado completamente desarmado, sem qualquer chance de defesa.
O julgamento, que deveria encerrar um capítulo de dor, foi marcado por uma forte carga emocional. Na plateia, assistindo à busca por justiça, estava um menino de nove anos, filho de Antônio. Na época do assassinato, a companheira do operário estava no quinto mês de gestação. O garoto cresceu sem conhecer o pai e esteve no plenário acompanhado de familiares.
O promotor de Justiça Luiz Fernando Rossi Pipino, responsável pela acusação, enfatizou o impacto humano da tragédia, destacando que a presença da família no tribunal trouxe o verdadeiro peso do crime que a farsa dos réus tentou camuflar.


